CARNIVAL(k)NIGHT Voltar ao site
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CAPÍTULO 3

O Sol da Noite

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A última coisa que a cidade deu a Eterna antes de o mundo virar apenas céu foi o asfalto explodindo sob seus pés.

O vento chegou depois. Ela já tinha ultrapassado em muito a barreira do som.

O punho encontrou o plano da espada. Sarinta o interceptou no último instante, firme atrás do aço veiado de brasa. O impacto correu pelos braços das duas, e elas subiram juntas por entre os prédios, rumo ao horizonte, riscando o ar com um arco duplo de raio e fogo.

O choque as manteve presas por um instante. Depois, a força represada rompeu o contato, e elas ricochetearam.

A partir dali, olho humano nenhum acompanharia o voo. Um risco dourado e outro vermelho costuraram espirais sobre os telhados, em trajetórias largas o bastante para abraçar quarteirões inteiros. Cada encontro abria um clarão; o estrondo chegava atrasado, perseguindo-as sem alcançar. Eterna, porém, via cada movimento: o ombro de Sarinta anunciando o corte, o fogo correndo pelas veias da espada, o sorriso se alargando sempre que o aço encontrava seus punhos.

Nas poucas vezes em que os raios das trocas rasparam Sarinta, deixaram cortes rasos. Todos se fecharam antes do arranhão seguinte.

O corpo de Eterna cantava. Não havia palavra melhor. Durante a vida inteira, treinou até o limite, até ficar cansada demais para respirar. Agora, cada músculo estava afinado em sua própria nota. Enfim podia tocar a música inteira.

A lâmina de fogo veio num arco. Eterna cruzou os antebraços; o corte virou colisão e as deteve no ar entre dois prédios. A energia liberada lançou as duas para lados opostos.

Eterna bateu contra um terraço, as botas abrindo sulcos gêmeos no concreto enquanto a armadura guinchava sob o calor.

Saiu do deslize rindo.

Tudo estava claro demais. Os sentidos tinham se aguçado naquele ponto raro a que só chegavam diante de algo capaz de matá-la. Havia muito tempo que Eterna não se sentia ameaçada.

Sarinta pousou na torre em frente, agachada em três apoios, com a espada atrás do corpo e o concreto estalando sob as garras. Diante de cada uma, um rastro ainda pendia no alto — vermelho de um lado, dourado do outro — e se desfazia na noite.

Por um momento, nenhuma se moveu.

A avenida ardia lá embaixo. A fumaça subia entre as torres, e o calor ondulava o ar sobre o fosso que as separava.

Eterna limpou da boca o sangue que restava e ergueu os olhos já sorrindo.

Sarinta jogou a cabeça para trás e riu também. O som rolou entre as torres, sobre o bairro em chamas.

Quando o riso passou, as duas estavam de pé nas beiradas opostas. A demônia endireitou as costas sem pressa, manteve a lâmina baixa e mediu Eterna de cima a baixo como quem avalia um igual à mesa.

— Você é forte. Te reconheço como guerreira.

O deboche desapareceu da voz.

Sarinta apontou o queixo para as mãos vazias de Eterna.

— Vá em frente, invoque sua arma. Vou esperar.

Eterna fechou a mão, e o relâmpago dourado crepitou como se respondesse por ela.

— Arma? Isso aqui é tudo que tenho.

Ergueu os punhos, abriu e fechou as mãos mais de uma vez, testando os tendões.

— Entendo.

A espada de fogo se desfez no ar. As faíscas subiram em espiral e sumiram, deixando Sarinta de mãos vazias.

— Então isto aqui não é necessário.

Eterna ergueu o queixo, surpresa.

— Que preocupação idiota. Vai se arrepender.

No rosto de Sarinta surgiu algo novo: antecipação.

— Não se exalte. É um banquete depois de muito tempo. Quero saborear devagar.

Sarinta abriu os braços para a cidade incendiada.

— Demônios poderosos não podem lutar entre si. E os fracos não têm graça. Faz tempo que não tenho uma luta de verdade.

O olhar recuperou a soberba habitual.

— Além do mais, você superou minhas expectativas, mas ainda é fraca diante de mim. Usar minha espada contra você numa batalha de verdade seria um insulto à minha honra.

Depois de enfrentar demônios suficientes para reconhecer padrões, Eterna sabia que alguma coisa naquela noite não parecia certa.

Por um instante, a fome cedeu lugar ao dever; ela falou como agente da Divisão.

— O que vocês querem? Qual o objetivo?

Os olhos varreram a ruína ao redor e voltaram para Sarinta.

— Esse tipo de ataque coordenado não combina com vocês.

— Que pergunta inútil.

Sarinta deu de ombros. Dava para ver que ela genuinamente não ligava para a resposta.

— Estratégias, motivos, a guerra ancestral... é tudo besteira.

Olhou para sua mão e fechou bem o punho.

— O que eu busco é uma só coisa: o combate contra os fortes. O banquete supremo. Além disso, nada mais importa.

Um brilho febril acendeu o amarelo de suas escleras.

— Seja humano, seja anjo, seja besta... tanto faz.

Levantou a cabeça e tornou a olhar para o outro prédio.

— Não concorda, Faísca?

E naquele momento, Eterna concordava.

— Não respondeu minha pergunta, mas eu gosto dessa ideia.

Ela continuou enquanto alongava os braços.

— É simples e fácil de entender. Não importa o que vocês estejam tramando ou quantos sejam.

Terminou de alongar e cerrou os punhos. A voz esfriou numa calma que teria assustado qualquer pessoa que a conhecesse.

— Basta eu matar todos vocês e caso encerrado.

O sorriso voltou logo depois, trazendo o deboche de Sarinta devolvido inteiro, com juros.

— Eu aceito seu desafio, chifruda. Lute sem sua espada. Só não venha com desculpas depois que perder.

O relâmpago dourado envolveu os braços de Eterna enquanto ela levantava a guarda.

— Agora vamos falar só com nossos punhos.

— Pirralha atrevida.

Sarinta ria ao dizer.

— A desafiante é você, Faísca.

A arrogância de Eterna alegrou a demônia — o sorriso dela era quase grato.

Eterna deixou o relâmpago subir sob a pele até o telhado inteiro zumbir.

Disparou.

Não houve travessia entre os telhados.

Houve o aqui — e então o espaço atrás de Sarinta. Eterna surgiu com o punho fechado, mirando as costelas da demônia com todo o peso do disparo.

A fase de medição havia acabado. Aquele golpe poderia encerrar uma luta.

Em vez das costelas, o punho encontrou uma palma aberta. Sarinta girou para dentro do ataque e já estava pronta para recebê-lo.

— Rápida — disse Sarinta. — Mas não o bastante.

A palma floresceu.

Uma erupção nasceu à queima-roupa. A lava comprimida entre palma e punho explodiu para fora, lançando Eterna através do quarteirão; a armadura ferveu, e a pele sob ela gritou.

Ela é forte. Reage rápido demais. Não vai ser tão fácil pegá-la de surpresa.

O pensamento veio enquanto ela era arrastada pelo ar.

Sarinta veio no encalço; Eterna se recompôs e voltou à troca ainda no ar. Abandonou os movimentos amplos.

Passou a pressioná-la com velocidade. Uma abertura teria que aparecer: soco revestido de relâmpago, chute giratório, cotovelo, joelhada. De novo. Mais rápido. Cada ataque chegava de um ângulo diferente. Sarinta aparou todos com as manoplas, os antebraços interceptando cada golpe com precisão de mestra.

Eterna continuou a pressionar — até que Sarinta desapareceu da sua frente.

A voz veio de trás.

— Impressionante. De verdade.

Uma das mãos de Sarinta se fechou junto à cintura, e a chama surgiu.

— Mas ainda é humana.

O punho veio.

O mundo cambalhotou.

Eterna atravessou uma parede. Reboco, tijolo e viga se desfizeram ao redor dos ombros, reduzidos ao mesmo balaio. Ela caiu de costas nos escombros da sala de alguém, com entulho no colo e moribundos arcos elétricos vazando da armadura.

Ficou sentada meio segundo além do necessário.

Olhando para o teto. Sangue morno escorrendo para dentro do ouvido.

Era essa.

A luta sem nome e sem rosto que perseguia desde jovem — a que nunca tinha encontrado nas missões encerradas rápido demais. Este peso. Esta pressão. Este ar queimado. Este momento.

O tamanho do próprio contentamento quase a assustou.

— Desiste — chamou Sarinta lá de fora, da fumaça. — Você lutou bem. É o seu fim.

Eterna se levantou com o coração em euforia e a mente fria:

Não acertei um golpe de verdade ainda. Sem falar que a recuperação dela é muito rápida: os poucos cortes já estão fechados.

Não posso continuar lutando com avanços diretos assim. Desse jeito, o dano vai se acumular do meu lado e não do dela. Preciso criar uma abertura para acertar um golpe em cheio.

Caminhou pelo entulho até a rua. Na esquina, um poste de aço sustentava a placa de proibido estacionar.

Vai ter que servir.

Juntou os dedos em forma de lâmina, revestiu a borda da mão de relâmpago e cisalhou a base do poste num único corte. O aço pendeu com atraso. Antes que tombasse, Eterna girou sobre o quadril e o chutou como numa cobrança de falta.

A lança improvisada saiu rente ao chão, reta, com a placa presa à outra extremidade como a cauda de uma flecha gigante.

— Patético. — Sarinta nem ergueu as mãos. — Você acha que um truque desses—

Eterna já estava em movimento.

Disparou com violência suficiente para arrancar das molduras as janelas restantes da rua. Os estilhaços ainda caíam quando ela ultrapassou o próprio poste e surgiu diante de Sarinta antes do fim da frase.

— Quê—

Socos.

A rajada veio rápida demais para uma defesa displicente, reluzente demais para ser vista por inteiro. Punhos demais ocupavam o ar — dois, cinco, dez — e obrigavam Sarinta a fechar a guarda e enxergar apenas os golpes.

— Você é rápida, mas esses soquinhos não vão me derrubar!

Eterna manteve a pressão, o pensamento batendo no ritmo exato dos punhos:

Não! Ainda não!

Ela continuou pressionando sem dar brecha para uma mudança. O tempo se comprimia, e um milésimo durava uma eternidade.

Mais um pouco! Continue atacando até o último milésimo!

No último instante, saiu da linha.

O poste chegou pela trajetória que Eterna traçou. A rajada nunca foi o ataque; era a mão do mágico mantendo os olhos de Sarinta no lugar errado. O aço atravessou o ombro esquerdo da demônia, arrancou-a do chão e a carregou avenida afora.

— Eeeerrr! Que truque idiota! Sua pirralha—

Eterna a alcançou no ar.

— Te peguei.

Agarrou o aço cravado e despejou a tempestade através dele. O poste acendeu em branco; Sarinta convulsionou ao redor da haste. Com a placa como apoio, Eterna saltou, pousou sobre ela e viajou em pé na própria lança, o cabelo chicoteado pela turbulência.

Com uma violência contrária a toda a graça que tinha acabado de demonstrar, desferiu um chute calçado de relâmpago na têmpora de Sarinta.

A trajetória da demônia quebrou para a esquerda.

Ela atravessou a fachada de mármore de um hotel. O letreiro estourou letra por letra sobre ela antes de desaparecer no saguão.

Quando a nuvem baixou, restava uma pilha de escombros. Do centro, o poste ainda saía reto para cima.

Como uma haste de bandeira.

Eterna pousou de leve na rua e soltou um longo fôlego.

— Senti no peito do pé que você sentiu essa.

A pilha inteira explodiu.

— Vou te matar!

Sarinta emergiu agachada enquanto o metal derretido que restava escorria do ombro e chiava sobre o mármore. Os olhos amarelos varreram a ruína, a fumaça, os cantos.

— Cadê?

Só então ela ergueu o rosto.

Eterna a esperava suspensa do outro lado da rua.

Lá no alto, segurava dois feixes de cabos de alta tensão arrancados do vão entre os postes. Embora estivessem cortados, as luzes do quarteirão permaneciam acesas. A corrente atravessava seu corpo sem feri-la e retornava à rede, como se ela oferecesse menos resistência que o cobre e o alumínio.

— Ainda não acabei.

O relâmpago corria dela para os fios e dos fios para ela.

— Esse vai ser especial!

Então ela puxou.

A corrente se inverteu. A energia da cidade correu para um único ponto, e tudo se apagou: janelas, postes, letreiros. Até ela. Durante um segundo, houve apenas breu, como se ela tivesse engolido a luz do mundo.

E da escuridão, rugiu de volta.

Uma explosão amarela acendeu o mundo de novo. Dentro dela, um leão de raios ergueu a juba em arcos e cravou as patas no asfalto. A energia era feroz demais para conservar a forma: a criatura se desfazia e se redesenhava a cada estalo, refeita mil vezes por segundo.

Por quilômetros, Eterna era o centro de gravidade. Descargas da grossura de postes escapavam dela e rasgavam concreto, terra e céu.

Lá embaixo, Sarinta ergueu o rosto. Admiração e choque preenchiam sua expressão.

— Pelos infernos... Um ser humano é mesmo capaz de fazer isso?

— Aqui vou eu.

“Relâmpago Imperial — Supernova”

Eterna sumiu.

Um piscar — e o ar se fechou no ponto de onde ela partiu. Ela caiu sobre a cidade como um cometa. Atrás dela, o leão dourado trazia uma tempestade de raios como se fosse a fúria dos céus.

Sarinta não recuou um passo.

Plantou os pés no entulho, abriu a base e ofereceu o corpo inteiro ao impacto.

— Isso! Esplêndido!

O fogo subiu por ela, do chão aos chifres.

— Vejamos então quem é mais forte, pirralha!

As chamas saltaram dos braços estendidos e encontraram o cometa no ar.

— É hora do BANQUETE!

Os ataques colidiram. O jorro infernal mordeu a eletricidade e se misturaram.

Com o impacto, uma coluna gigantesca de fogo e raios subiu — um pilar de duas energias ligando a rua às nuvens. Na base, uma esfera branca começou a inchar, crescendo e varrendo tudo ao redor. A destruição chegou ao ápice: quarteirões inteiros evaporaram, e a noite se iluminou de baixo para cima.

Primeiro, restou o zumbido. Depois, o resto voltou: chamas crepitando, fumaça subindo, poeira assentando.

Então Sarinta saiu andando de dentro da fumaça — primeiro só a silhueta, os chifres e o cabelo; depois inteira, ferida, mas longe, muito longe de morta. O buraco no ombro já se costurava sozinho com fios de carne nova, e arranhões riscavam a pele amarelada.

E ela ria.

— Nada mal. Nada mal mesmo, Faísca.

Bateu no peito.

— Ainda consegue continuar? Ou isso foi tudo?

Do outro lado da terra devastada que o golpe deixou, Eterna puxava o ar em respirações profundas. As costas estavam levemente curvadas, e fiapos dourados ainda escapavam da armadura. Tinha acabado de liberar energia equivalente a uma bomba. Do outro lado, a demônia estalava o pescoço.

Só alguns arranhões depois de tudo aquilo? Que monstrenga maldita!

Não conseguia parar de sorrir.

A resposta lhe escapou antes da culpa:

— O pior é que eu também tô ficando empolgada.

Endireitou as costas. O sorriso de uma refletiu o da outra.

— Sua demônia maluca. Isso é óbvio!

A respiração de Eterna ainda não tinha voltado ao ritmo normal, mas ela começou a andar.

Sarinta veio ao encontro.

Não correram. Cruzaram a passos lentos o terreno raspado até o osso, brasas subindo do chão queimado. A distância encurtava; nenhuma desviava o olhar.

De algum ponto da cidade, o grave abafado da música chegava em pulsos mais sentidos que ouvidos.

Foi no meio dessa travessia que surgiu, claro e perigoso, o pensamento intrusivo que Eterna queria trancar:

Droga. Não me importo com mais nada agora. Nem com a cidade, nem com as ordens, nem com o futuro. Só não quero que isso acabe ainda.

Eterna sabia por que tentava trancá-lo: sabia que estava ignorando algo que não devia ignorar.

Mesmo assim, ignorou.

— Vamos lutar. Vamos lutar até uma de nós virar pó!

Continuou avançando no mesmo ritmo.

— É assim que se fala! — Sarinta respondeu com euforia.

As chamas escalaram para além dos telhados que ainda restavam, uma coluna visível do mar.

— Então vamos lutar, pirralha.

Pararam a um dedo de distância uma da outra.

Perto o bastante para sentir a menor contração muscular. Vermelho de um lado, dourado do outro; faíscas cruzavam o vão entre os rostos. Satisfação no semblante e o ar entre elas parecia uma mola comprimida até o limite, pronta para explodir com violência a qualquer momento.

Nenhuma recuou. Nenhuma piscou.

Sem aviso, entraram em posição de combate.

Eterna puxou a perna direita para trás, jogou o braço esquerdo à frente e afundou a base, fechando a guarda. Então gritou. O grito lhe arrancou a aura do corpo; lampejos dourados subiram pelos braços.

Sarinta fez o mesmo: armou a própria base, as garras mordendo o chão enquanto o fogo respondia.

Como um sinal de início, perto dali, um pedaço de concreto que há pouco era coluna — mas agora pendurado por um único vergalhão entortado — cedeu e caiu.

Estilhaçou.

E as duas avançaram uma contra a outra.

Elas se acertavam com uma brutalidade que teria desmontado qualquer outro corpo e não paravam de avançar uma para dentro da outra no minúsculo ringue imaginário que criaram.

Relâmpago contra fogo. Fogo contra relâmpago. Cotovelos, joelhos, testas; o chão sob as duas afundando em pratos concêntricos a cada troca.

Eterna disparou um chute na altura da cabeça. Sarinta bloqueou com o antebraço, agarrou-lhe a perna e a arremessou para longe.

No meio do arco, Eterna travou o voo. Os olhos percorreram o campo.

Cadê, cadê—

Sarinta veio por cima.

As mãos entrelaçadas formavam uma marreta. A demônia desceu com todo o peso do mergulho, atingiu Eterna em cheio e a atirou contra o chão. Fumaça subiu do centro do impacto como se um prego em brasa tivesse sido martelado ali.

Sarinta não deu descanso.

Eterna não procurou descanso. Subiu na mesma velocidade com que caiu, voando através da própria fumaça, e as duas se chocaram outra vez no céu.

Veio uma troca mais pesada. Eterna acertou o estômago de Sarinta, sentiu o metal ceder e viu a saliva voar. Sarinta devolveu o golpe nas costelas; os olhos de Eterna ficaram brancos por um instante.

As duas sentiram. Eram golpes de acabar luta.

Mas não pararam.

Sarinta carregou a aura e abriu os braços. A rajada saiu como uma parede de chamas, larga demais para ser contornada.

Eterna afundou por baixo. O queixo raspou o pé da onda de fogo, as pontas do cabelo chiaram, e ela emergiu da esteira de fogo com um gancho de relâmpago dourado — perna, quadril, ombro, o corpo inteiro por trás do golpe.

Sarinta bloqueou no último instante.

Mas o bloqueio veio torto. O antebraço cedeu meio palmo, e a guarda se abriu pela primeira vez.

Meio palmo foi tudo que Eterna precisou.

Ela já estava dentro. O punho direito esperava junto à cintura; o avanço no ar fechou o espaço que Sarinta usaria para girar. O golpe subiu pela abertura e alcançou a ponta do queixo.

A cabeça da demônia estalou para trás.

O corpo de Eterna emendou o movimento antes do pensamento. Ela girou no próprio eixo e desceu o calcanhar numa linha reta, direto na cabeça. Sarinta foi empurrada pelo ar, tentou segurar o impulso — dez metros, vinte — até os pés afundarem a laje em que aterrissou.

Sarinta parou. Tocou o canto da boca com o polegar em garra e observou o sangue escuro na ponta.

Riu — uma risada curta e faminta. O arco de fogo atrás da cabeça ganhou outro tom.

Dispararam novamente. Depois disso, Eterna nunca saberia contar os golpes em ordem.

O céu voltou a ser pintado por rastros. Elas se perderam e se encontraram sobre uma caixa-d’água. Eterna chutou o reservatório contra a rajada seguinte; milhares de gotas transmitiram sua eletricidade, mas o fogo as converteu em vapor. Então só restaram os punhos.

A troca subiu com elas mais alto ainda.

Estava vivendo o melhor momento da vida dela.

Estava, e Eterna sabia disso enquanto acontecia — mas a contabilidade também acontecia, silenciosa, implacável. Cada troca custava para ela o dobro do que custava para Sarinta. Os punhos latejavam dentro da manopla. O antebraço esquerdo estava dormente do pulso ao cotovelo. O relâmpago, que a até então saía dela como trovão, agora vinha em pequenos arcos, um motor engasgando, já no fim da reserva.

O corpo humano é honesto. Faz tudo o que se pede — e cobra tudo o que faz.

E a conta chegou.

Veio devagar, traiçoeira: o chute saiu um décimo atrasado; a guarda subiu pesada, como se o ar tivesse virado água. O corpo respondia às ordens com um intervalo cada vez maior. Do outro lado, Sarinta começou a se esquivar, bloquear e contra-atacar com facilidade. Dois, quatro, seis golpes encaixaram seguidos.

Sarinta não tinha ficado mais forte. Era a fadiga de um combate prolongado no limite que, como uma sangria desatada, secava a reserva de Eterna. Sarinta percebeu.

A demônia recuou, ganhou altura e baixou os punhos.

— Você lutou bem. Mas seu corpo já está além do limite. É admirável que ainda esteja de pé.

Eterna abriu a boca para discordar.

— Fale por você. Eu ainda não aca—

O sangue veio sem aviso. Subiu pela garganta no meio da frase, e Eterna cuspiu vermelho no próprio punho erguido. A visão ficou turva; o mundo se dividiu em dois.

— O-O quê...?

Ela não caiu do céu. Ainda conseguia voar, ou estava paralisada ali. Mas o corpo inteiro virara chumbo, e a voz da demônia chegou sem nenhum deboche:

— Ainda não era você… De toda forma, foi magnífico. Fazia séculos que não me entregava assim à batalha, sem pensar em mais nada. Em sinal de respeito, lhe darei um fim à altura.

A aura de Sarinta se abriu inteira.

O arco de fogo atrás da cabeça virou um sol incandescente, e o calor ergueu colunas trêmulas no ar. Dentro do clarão, a demônia já não sorria. Encarava Eterna com a seriedade devida a um rito.

“Fogo Infernal — Funeral Carmesim”

Não houve cerimônia. Para quem até então quisera prolongar cada instante da luta, Sarinta decidiu encerrá-la com uma rapidez quase cruel. Naquela pressa, porém, havia uma bizarra forma de empatia.

Depois de um combate tão visceral, conheceu a alma de Eterna como guerreiros às vezes se conhecem: sem precisarem dizer nada. Sabia que ela não pararia nem mesmo abandonada pelo próprio corpo, reduzida a uma condição indigna para uma guerreira.

Não permitiria que essa imagem manchasse a feroz pureza daquela batalha.

Ainda assim, Eterna tentou reagir. Chamou o relâmpago e começou a erguer a guarda, mas quando seus braços finalmente se moveram, já era tarde demais.

O punho em chamas a atingiu de cima para baixo com toda a fúria do incêndio que carregava. Eterna despencou como um projétil, deixando Sarinta suspensa no céu acima dela, cada vez mais distante.

Então veio o segundo impacto.

A leoa dourada atravessou o asfalto numa explosão de pedra e concreto. O chão afundou sob ela numa cratera colossal. O fogo não se dispersou em círculo: rasgou o terreno em quatro direções e abriu uma cruz carmesim. As rachaduras brilharam ao redor da cratera como se a cidade tivesse sido marcada por uma lápide em chamas.

Por um instante, tudo o que existiu foi vermelho.

Eterna desapareceu no centro daquele funeral de fogo, engolida pela fumaça, pelos escombros e pela escuridão do abismo.

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